12 November 2009

ORA AÍ ESTÁ: CONTEXTUALIZAR, SEMPRE!



(2009)
SUFJAN STEVENS - THE BQE (V)






keepvid

(2009)
CRONOLOGIA DE UM GOLPE



O trailer:

"Acto I. Estamos a 3 de Outubro de 2004 e José Sócrates é eleito líder do PS. A 9 de Outubro, Armando Vara regressa à direcção do partido pela mão de Sócrates. A 20 de Fevereiro de 2005, o PS vence as legislativas com maioria absoluta. A 2 de Agosto de 2005, há mudanças na Caixa Geral de Depósitos: Teixeira dos Santos afasta Vítor Martins e Vara integra o 'novo' conselho de administração. A maioria dos membros desse conselho é afecta ao PS".

Agora, o filme completo.

(2009)

11 November 2009

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (XXXII)

José António Saraiva




Insigne pensador de longo curso, José António Saraiva é uma daquelas raríssimas sumidades intelectuais que concretiza a dificílima proeza de traduzir a sublimidade das suas reflexões numa linguagem que qualquer porteira pode compreender. Tome-se como exemplo este seu belíssimo texto sobre o casamento gay. Inicia-se de modo coloquial, num sedutor registo "Caras"/"Nova Gente" ("Julgo que, para esta abertura de Sócrates aos novos ventos, muito contribuiu a sua relação com Fernanda Câncio – que curiosamente chegou a ser minha jornalista no Expresso. Era na altura uma jovem vistosa mas profissionalmente discreta, que escrevia (e assinava) a duas mãos com uma colega, pelo que nunca se revelou. (...) Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher’, diz o ditado. No caso de José Sócrates, está uma mulher que o tem influenciado no sentido do apoio a rupturas sociais"), de seguida, delimita conceitos fundamentais ("Uma sociedade organizada vive de referências. E uma das principais referências é a família, da qual o casamento é o acto fundador. Ora uma relação entre homossexuais é uma coisa diferente. Não é o acto fundador de uma família. Tem um carácter mais efémero, até porque não pode haver descendentes: dois homens ou duas mulheres que decidam viver juntos renunciam a ter filhos comuns"), e, então, mergulha de cabeça na grande discussão científico/filosófico/sociológica: Quando se debate homossexualidade convém separar duas coisas: a ‘propensão genética’ e o ‘fenómeno de moda’ ou de imitação. Não há dúvida de que existem pessoas com inclinações homossexuais naturais"



E é justamente aqui, quando o tema poderia ameaçar tornar-se impenetravelmente hermético, que, com imensa graça e terna malícia, volta a aligeirar o registo (parece que estamos a ouvi-lo falar, entre a torrada e o golinho de chá): "Contava-me uma empregada minha que numa casa onde em tempos trabalhou havia um menino que só gostava de brincar com bonecas, tachos e panelas. A minha empregada começou a achar aquilo estranho. E a verdade é que, na saída da adolescência, o menino revelou a sua inclinação homossexual. Este caso deverá ser extremo, mas não há dúvida de que em certas pessoas a inversão sexual se manifesta muito cedo".



Realizado o diagnóstico da "inversão" ("que, aliás, também se verifica no reino animal"), há que contextualizá-la social e historicamente: "Em certos meios, ser homossexual pode ser hoje sinal de modernidade, de desinibição, de desafio às convenções. No mundo da moda, por exemplo, a homossexualidade é hoje a regra. E aqui é que importa parar para reflectir. Estas modas que enfrentam regras e convenções, e que alastram em certos ambientes generalizando comportamentos minoritários ou marginais, não serão um sinal preocupante? Olhando para a História, não é verdade que os fenómenos deste tipo ficaram a assinalar períodos de declínio?". Arquitecto, mas com o bichinho do jornalismo, de há muito, no sangue, JAS não consegue evitar a notinha de reportagem: "Em Paris visitei recentemente uma zona – o Marais – frequentada à noite por multidões de homossexuais, e confesso que fiquei muito impressionado com o que vi: milhares de jovens, alguns no início da adolescência, exibiam ostensivamente a sua atracção (real, forçada?) por pessoas do seu sexo".



Porque visita locais frequentados por "multidões de homossexuais", Saraiva tem toda a autoridade para afirmar posições claras ("Sempre condenei a homofobia. Sempre defendi a tolerância. Trabalho com homossexuais e tenho amigos que assumidamente o são") e para rematar, entre o perplexo, o compassivo e o angustiado: "Será que uma pessoa chega a certa idade e interroga-se: ‘Qual irá ser a minha opção sexual? Optarei por ser heterossexual? Ou vou optar antes por ser gay?’. As inclinações homossexuais não são uma ‘opção’. Ou resultam de uma inclinação genética ou de fenómenos de moda ou de imitação. Mas aqui também não há propriamente ‘opção’: há seguidismo, há o ir na onda, há cedência ao ar do tempo. Estes homossexuais sem propensão genética serão potencialmente os mais infelizes – porque não se sentirão bem na sua pele. E passarão ao lado da possibilidade de terem uma família, mulher e filhos. Em troca de quê?".

Sim, em troca de quê?...

(2009)
SUFJAN STEVENS - THE BQE (IV)






keepvid

(2009)
MAIS UMA QUE ME DEIXA VERDE DE INVEJA
POR NÃO TER SIDO EU A ESCREVÊ-LA...




"O arcebispo de Braga, falando das «interpretações egoístas do dom da sexualidade», criticou o seu exercício «meramente amistoso» ou «lúdico». A única novidade aqui é o «meramente amistoso». Não sei se D. Jorge Ortiga está a pensar nos «fuck buddies», conceito que talvez ainda não tenha chegado à arquidiocese de Braga; talvez seja a «amizade colorida» ou a «amizade com benefícios». É disso que se trata? Mas será o coito entre amigos de facto «amistoso»? Confesso que não imagino o que seja «sexo amistoso». O acto sexual pode ser muitas coisas, apaixonado, desastroso, lascivo, competitivo, aborrecido, perverso, pode até ser simples débito conjugal, mas é sempre absolutamente contrário a qualquer noção útil de amizade. É um acto violento por natureza, que embora possa ser praticado com amigos, é tudo menos amistoso. Se, por regra, os amigos se viessem, nenhuma amizade durava muito". (Pedro Mexia)

(2009)

10 November 2009

ACADEMISMO MODERNO



Sufjan Stevens - The BQE




Sufjan Stevens - Run Rabbit Run

É melhor começarmos a deixar de acreditar que, um dia, Sufjan Stevens irá concluir o projecto de compor e gravar um álbum dedicado a cada um dos 50 estados da União que anunciou por altura da publicação de Greetings From Michigan, em 2003. Até agora, para além desse, apenas se lhe seguiram, em 2005, Illinois e, um ano depois, The Avalanche: Outtakes And Extras From The Illinois Album. Mas, se aceitarmos a ideia de não o tomar excessivamente à letra, não será difícil reconhecer que – mais directa ou indirectamente – quase toda a sua música (até os EP de canções de Natal) acaba por ser uma colecção de imagens captadas através das múltiplas faces do grande poliedro americano. The BQE não poderia ser um melhor exemplo disso mesmo: encomendada pela Brooklyn Academy of Music e estreada em Outubro de 2007, no decurso do Next Wave Festival, na Howard Gilman Opera House, é uma suite cinematográfica-musical inspirada pela Brooklyn-Queens Expressway, a decrépita autoestrada, construída entre as décadas de 30 e 60, que liga esses dois "boroughs" de Nova Iorque e que se converteu em ícone da corrosão urbana.



É perfeitamente possível escutar a música independentemente das imagens mas a obra só ganha verdadeiramente o sentido total – é o próprio Stevens que invoca o conceito wagneriano de "Gesamtkunstwerk" – no ponto onde filme e banda sonora se encontram. Realizado por Sufjan e Reuben Kleiner em película de 8 e 16 milímetros, no ecrã permanentemente tripartido é projectada uma polifonia visual que (intercalada com o "ritornello" de um trio de "hula hoopers"), coreografando, da manhã até à noite, travellings, picados, contrapicados, grandes planos, zooms e planos fixos de ruas, edifícios, automóveis, asfalto, rodas e engarrafamentos – algures entre o Koyaanisqatsi, de Reggio/Glass, e The Man With The Movie Camera, de Vertov –, se articula com o glorioso poliestilismo da partitura sinfónica (desdobrada em sucessivas vénias a Philip Glass, Copland, Ives, Gershwin ou Bernstein) e caminha de um registo documental geometricamente encenado para a pura abstracção cinética.



Run Rabbit Run, entretanto, é outra demonstração do exuberante e eclético "academismo moderno" de Sufjan Stevens: interpretado pelo quarteto de cordas, Osso, e com arranjos de Maxim Moston, Nico Muhly, Gabriel Kahane, Michael Atkinson, Rob Moose e Olivier Manchon, o seu álbum de 2001, Enjoy Your Rabbit (aventura electrónica em torno do Zodíaco chinês), renasce como brilhante exercício de releitura assente em textos de apoio dos vários minimalismos mas também de Bartók, Debussy, Ravel e (outra vez) Ives ou Copland.

keepvid

(2009)
MAIS UM MEMBRO PARA O CLUBE



Vida Breve

(2009)

09 November 2009

EM DEFESA DO PESSIMISMO ANTROPOLÓGICO


Muro de Berlim - Ana Leonor Rodrigues
(clicar para ampliar)


João Lisboa - Os temas políticos, que raramente o têm interessado, aparecem, no seu último álbum [The Future, 1992], em duas canções, "The Future" e "Democracy", sem se compreender exactamente se encara ambos com pessimismo ou esperança...
Leonard Cohen - Procurei apenas ser preciso. O acontecimento que deu origem a essas duas canções foi a queda do muro de Berlim, celebrada por toda a gente como uma ocorrência magnífica, mas que eu vi como um evento sinistro. Talvez devido à minha relutância em aderir à festa, senti uma espécie de "frisson" que me dizia que algo terrível iria acontecer. Por isso, instintiva e nada programaticamente, escrevi "Give me back the Berlin Wall, give me Stalin and St. Paul", pressentindo que aquela ordem se iria desmoronar. E acrescentei, muito claramente, "I've seen the future, it is murder". Infelizmente, foi o que aconteceu. E creio que cada vez se tornará mais claro que os instintos homicidas da humanidade têm de ser controlados por governos centrais muito fortes. De outro modo, serão a morte e o caos generalizados. Os seres humanos são assim mesmo.

JL - Desconfia bastante da espécie humana?
LC - É preciso ter muito cuidado com ela!...
(Provas de Contacto, Assírio & Alvim, 1998)

(2009)
GIVE ME BACK THE BERLIN WALL,
GIVE ME STALIN AND ST. PAUL,
I'VE SEEN THE FUTURE, BROTHER,
IT IS MURDER




(2009)
QUARTO CRESCENTE



Nick Cave & Warren Ellis - White Lunar

Sem demasiado burburinho, Nick Cave e Warren Ellis têm vindo a converter-se numa dupla de compositores de "film-music" cuja obra não apenas exibe um perfil de autor(es) claramente definido como, especialmente, interiorizou, por inteiro, o quadro de funções e necessidades a que uma partitura para cinema deve responder.



O que, para quem se habituou à ideia de que à sua obra deve estar sempre reservado o primeiro plano, não haverá de ser propriamente intuitivo. Tal como, tomar consciência de que, por essa mesma razão, só raramente ela conquistará autonomia em relação à totalidade de que faz parte, também implicará alguma aprendizagem.



White Lunar, reunindo a música de Cave e Ellis para diversos filmes – nomeadamente, The Assassination of Jesse James By The Coward Robert Ford (2007), The Proposition (2005, com argumento do próprio Nick Cave) e The Road (ainda não exibido, a partir do livro de Cormac McCarthy) – é uma óptima demonstração de tudo isto: se as bandas sonoras desses três filmes (em particular, a do magnífico The Proposition) sobrevivem intactas à amputação das imagens, as que se incluem no segundo CD poderão ser pertinentes no ecrã mas, tomadas em si mesmas, dificilmente ultrapassam a condição de música incidental.

(2009)

08 November 2009

SUFJAN STEVENS - THE BQE (II)






keepvid

(2009)
MAIS 54'37" DE "BOATOS" E "RUÍDO"
SOBRE A GRIPE A, DR. SAKELLARIDES?



(largado aqui, na caixa de comentários, pela F)

Teresa Forcades i Vila; mais aqui e aqui; Crimes And Abuses of The Pharmaceutical Industry; Una Reflexión Y Una Propuesta En Relación A La Nueva Gripe (em inglês).

(2009)

07 November 2009

SUFJAN STEVENS - THE BQE (I)






keepvid

(2009)
ZOONOSIS


Shelter from the flu (ou usos alternativos
para o primeiro caderno do "Expresso")


"Sick kitty was nothing to sneeze at: A 16-pound orange tabby in Ames, Iowa, did something last month that will now and forevermore have a lot of cat lovers taking care to sneeze into their sleeves. The tabby came down with H1N1 swine flu, proving that humans ill with the flu virus should take pains not to spread it to cats as well as humans. The case surprised human and animal health authorities, who hadn't seen a human flu virus passed to a cat before, though passionate cat lovers were shaking their heads knowingly when it was reported last week".

(2009)